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Autor: Me. Cláudio Fernandes
A Primeira Guerra Mundial, que durou
de 1914 a 1918, foi considerada por muitos de seus contemporâneos como a mais
terrível das guerras. Por este motivo, tornou-se conhecida durante muito tempo
como “A Grande Guerra”. Para se compreender os motivos de ter sido uma guerra
tão longa e de proporções catastróficas é necessário relembrar alguns aspectos
do cenário político e econômico mundial das últimas décadas do século XIX.
Na segunda metade do século XIX, a
junção entre capitalismo financeiro e capitalismo industrial proporcionou a
integração econômica mundial, favorecendo assim, principalmente, as nações que
haviam começado seu processo de industrialização. Essas mesmas nações
expandiram significativamente seu território em direção a outros continentes,
sobretudo ao Asiático, ao Africano e à Oceania. A Inglaterra, por exemplo,
integrou grandes países ao seu Império, como a Índia e a Austrália. Todo esse
processo é conceitualmente tratado pelos historiadores como Imperialismo e
Neocolonialismo. Nesse cenário se desencadearam os principais problemas que culminaram
no conflito mundial.
No início da década de 1870, a
Alemanha promovia sua unificação com a Prússia e, ao mesmo tempo, enfrentava a
França naquela que ficou conhecida como Guerra Franco-Prussiana. Ao vencer a
França, a Alemanha possou a ter posse sobre uma região rica em minério de
ferro, que foi importantíssima para o desenvolvimento de sua indústria,
incluindo a indústria bélica. Tratava-se da região de Alsácia e Lorena. A
França, na década posterior à guerra contra a Alemanha, desenvolveu um forte
sentimento de revanche, o que provocava uma enorme tensão na fronteira entre os
dois países. A tensão se agravou quando Otto Von Bismarck, o líder da
unificação alemã, estabeleceu uma aliança com a Áustria-Hungria e com a Itália,
que ficou conhecida como Tríplice Aliança. Essa aliança estabelecia tanto
acordos comerciais e financeiros quanto acordos militares.
A França, que se via progressivamente
ameaçada pela influência que era estabelecida pela Alemanha, passou a firmar
acordos, do mesmo gênero da Tríplice Aliança, com o Império Russo, czarista, em
1894. A Inglaterra, que era um dos maiores impérios da época e também se
resguardava do avanço alemão e temia sofrer perdas de território e bloqueios
econômicos, acabou se aliando à França e à Rússia, formando assim a Tríplice
Entente.
Tropas alemãs posicionadas em uma trincheira que ficava nos arredores de Paris.
A tensão entre as duas alianças se tornou crescente, especificamente em algumas regiões, como a península balcânica. Na região dos Balcãs, dois grandes impérios lutavam para impor um domínio de matiz nacionalista: o Austro-Húngaro e o Russo. A Rússia procurava expandir sua ideologia nacionalista eslava (conhecida como Pan-eslavismo) e apoiava a criação, nos Balcãs, do estado da Grande Sérvia, enquanto a Áustria-Hungria se aproveitava da fragilidade do Império Turco-Otomano (que dominou esta região durante muito tempo) e procurava, com a ajuda da Alemanha, estabelecer um controle na mesma região, valendo-se também de uma ideologia nacionalista (conhecida como Pangermanismo). No ano de 1908, a região da Bósnia-Herzegovina foi anexada pela Áustria-Hungria, o que dificultou a criação da “Grande Sérvia”. Além disso, a Alemanha tinha interesses comerciais no Oriente Médio, em especial no Golfo Pérsico, e pretendia construir uma ferrovia de Berlim a Bagdá, passando pela península balcânica.
O estopim para o conflito entre as
duas grandes forças que se concentravam na região dos Balcãs veio com o
assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da
Áustria-Hungria, por um militante da organização terrorista Mão Negra, de viés
nacionalista eslavo. O assassinato do arquiduque ocorreu em 28 de janeiro de
1914, em Sarajevo, capital da Bósnia. Francisco Ferdinando tinha ido a Sarajevo
com a proposta da criação de uma monarquia tríplice para região, que seria
governada por austríacos, húngaros e eslavos. Sua morte acirrou os ânimos
nacionalistas e conduziu as alianças das principais potências europeias à
guerra.
A Áustria percebeu neste fatídico
acontecimento a oportunidade de atacar a Sérvia e demolir o projeto eslavo de
construção de um forte estado. Sendo assim, Áustria-Hungria e Alemanha deram um
ultimato à Sérvia para solucionar o caso do assassinato de Francisco
Ferdinando. A Servia negou-se a ceder à pressão dos germânicos e, com o apoio
da Rússia, sua aliada, preparou-se para o que veio a seguir: a declaração de
guerra por parte da Áustria-Hungria, que foi formalizada em 28 de julho de
1914. Logo a França ofereceu apoio à Rússia contra a Áustria-Hungria, o que fez
a Alemanha declarar guerra contra a Rússia e a França. O conflito logo se
expandiu para outras regiões do globo.
A guerra se intensificou quando o
exército alemão, que era o mais moderno da época, rumou em direção à França,
passando pelo território belga, que era neutro. Isso fez com que a Inglaterra,
aliada da Rússia, declarasse guerra à Alemanha. A partir desse momento, a
guerra ganhou proporções cada vez mais catastróficas. As principais formas de
tática militar eram a guerra de trincheiras, ou guerra de posição, que tinha
por objetivo a proteção de territórios conquistados; e a guerra de movimento,
ou de avanço de posições, que era mais ofensiva e contava com armamentos
pesados e infantaria equipada.
Ao longo da guerra, o uso de novas
armas, aperfeiçoadas pela indústria, aliado a novas invenções como o avião e os
tanques, deu aos combates uma característica de impotência por parte dos
soldados. Milhares de homens morreram instantaneamente em bombardeios ou
envoltos em imensas nuvens de gás tóxico. Essa característica produziu um alto
impacto na imaginação das gerações seguintes à guerra. Escritores como Erich
Maria Remarque, Ernst Jünger e J. J. R. Tolkien, que combateram na Primeira
Guerra, extraíram dela muitos elementos para composição de suas histórias.
O ano de 1917 foi decisivo no
contexto da “Grande Guerra”. Nesse ano, a Rússia se retirou do front de
batalha, haja vista que seu exército estava obsoleto e sua economia arruinada.
Foi neste ano também que os revolucionários bolcheviques fizeram sua revolução
comunista na Rússia, fato crucial para a efervescência política europeia das
décadas seguintes. Foi ainda em 1917 que os Estados Unidos entraram na guerra
ao lado da Inglaterra e da França e contra a Alemanha, que já não mais tinha a
mesma força do início da guerra. Sendo que, após o fim da Primeira Guerra em
1918, os Estados Unidos tornaram-se a grande potência fora do continente
europeu.
A “Grande Guerra” chegou ao fim em
1918, com vitória dos aliados da França e grande derrota da Alemanha. O ponto
mais importante a se destacar quanto ao fim da guerra são as determinações do
Tratado de Versalhes. Nessas determinações, os países vencedores não aceitaram
a orientação da Liga das Nações de não submeter a Alemanha derrotada à
indenização pelos danos da guerra. Sendo assim, a Alemanha foi obrigada a ceder
territórios e a reorganizar sua economia tendo em conta o futuro ressarcimento
aos países vencedores da Primeira Guerra, sobretudo a França.
O saldo de mortos durante os cinco
anos da Primeira Guerra foi de um total de 8 milhões, dentre estes, 1.800.000
apenas de alemães. Esse tipo de mortandade acelerada e terrivelmente impactante
tornou a se repetir a partir de 1939, com a Segunda Guerra Mundial.
O imaginário da Primeira Guerra povoa
os territórios de várias artes. No cinema, por exemplo, temos inúmeros filmes
que a tematizam. Dois deles merecem destaque: “Corações do Mundo” (1918), de
Griffith, produzido ainda “sob o calor da guerra” e “Glória Feita de Sangue”
(1957), de Stanley Kubrick.
